domingo, 15 de outubro de 2017

Dias de Infância, Memória da Fazenda do Fundão: obra-prima do Documentário Brasileiro.

O cartaz do filme, lançado em agosto de 2015,
na Casa da Cultura Câmara Torres, no Bairro Histórico de Paraty.
(Divulgação)

O Saco do Fundão, visto de satélite.
(Divulgação)



Marcelo Câmara*

O Fundão é um paradisíaco fundo de golfo, quase um pequeno fiorde, no litoral sul de Paraty, RJ, entre a Ponta Grossa e o Saco do Mamanguá. O Saco do Fundão. Era a sua costa, em meados do Século XIX, uma de muitas glebas de terra de Domingos Feliciano Corrêa, grande proprietário de fazendas, produtor rural, patriarca de grande descendência, famoso pelas Cachaças que fabricava, inclusive estabelecendo o primeiro engenho a vapor em Paraty no final do Século XIX. Porém, a legendária Fazenda do Fundão não foi obra de Domingos, mas construída e consolidada, no início do século passado, por um de seus filhos, Pedro Erasmo de Alvarenga Corrêa, conhecido como Seu Peroca, outro afamado fazendeiro, brilhante alambiqueiro, exímio administrador rural.

De barco, rumo à Praia do Ubá, na Fazenda do Fundão, no fundo do golfo.
(Divulgação)
A Fazenda do Fundão foi um belo sítio de produção agrícola, com casa grande, lago, engenho com roda d’água para produção de Cachaça, rapadura e melado, paiol, curral de leite, pátio para secagem de feijão e cereais, inúmeras espécies silvestres e frutíferas, canavial, várias lavouras, pomar, criação de gado e de muitos animais, hortas, variados cultivos, praia, mangue. O Fundão fez história pela excelência de seus produtos e pela maneira notável, então moderna e eficiente, de como era bem administrada. Pai, com Domingas Ayres Corrêa, de prole numerosa – treze filhos, dois homens e onze mulheres - e laureado aguardenteiro, Seu Peroca produzia as célebres e premiadas marcas de Cachaça: Branca do Peroca, Azulada do Peroca e Branca do Fundão. Algumas garrafas delas tenho orgulhosamente comigo, e as bebo em dias extraordinários. Uma tradição oral em Paraty informa que o Seu Peroca inventou a Cachaça azuladinha, no início do Século  XX, colocando folhas de tangerina ou de laranjeira, na panela do alambique. Assim como fora o criador também de três tipos, denominações, de Cachaças especialíssimas, compostas, maravilhosas, incolores, transparentes como água, que só existiam em Paraty: a Laranjinha, a Lourinha e a Canelinha, com os sabores sutis, discretos, ao final do gole, da laranja, do louro e da canela, respectivamente. Hoje, nenhum alambiqueiro se arrisca a fabricá-las na Excelência Sensorial com que fazia o Seu Peroca e, nas décadas de 1960 e 1970, Ormindo M. Brasil, empregado do Engenho da Dona Quita, que criou e fabricava a Cachaça Coqueiro, uma das melhores do mundo, marca de excelência, hoje de propriedade de um sobrinho-neto do Seu Peroca, destilado que continua primoroso, com a mesma altíssima qualidade. 

A sede da Fazenda do Fundão por volta de 1930. (Divulgação)
Com a morte do Seu Peroca em 1964, a Fazenda do Fundão foi vendida para um milionário paulistano que a destruiu por completo: aterrou o mangue, viveiro de espécies e habitat de aves marinhas, dizimou pomares e matas nativas, todas as benfeitorias (casa, engenho etc.), provocou erosões no solo, enfim arrasou o Fundão. Eu, na juventude, ainda alcancei ruínas e a bela e imponente roda d’água do engenho. Triste, desolador. Criminosa a terra arrasada que se consumou.

Garça sobrevivente no Saco do Fundão.
(Divulgação)
A filha caçula do Seu Peroca (apenas ela e uma irmã estão vivas), a professora e escritora Maria Thereza Corrêa Ermelich, hoje com oitenta anos, vivia em São Paulo, SP desde o casamento em 1962 e, nas suas vindas a Paraty durante o desmonte do Fundão e, finalmente, com a sua destruição total, sofreu, chorou, se amargurou muito. A partir de 2002, ela e o marido resolveram viver definitivamente em Paraty. Maria Thereza, a Teleca, se transformou numa surpreendente escritora, uma cronista de brilhante memória e senso etnográfico, uma artista de grande talento. Em 2016, ficou  viúva, retornando a São Paulo, onde vive atualmente.



Seu Peroca, Dona Domingas e nove dos treze filhos.
(Divulgação)
O documentário longa-metragem Dias de Infância – Memória da Fazenda do Fundão, de Tati Beck, de 2015, é uma extraordinária obra de arte. Belíssimo! Um filme para chorar, sorrir, pensar, amar. Admirável, majestosa, impressionante a capacidade da cineasta para recriar, atualizar, sublimar e eternizar, cinematograficamente, como arte cinematográfica, como Cinema, os dois preciosos livros artesanais de Maria Thereza Corrêa Ermelich, atualmente com oitenta anos. São eles: Histórias Frutíferas – Lembranças da infância na Fazenda do Fundão em Paraty (Ed. da autora, 2ª ed. revisada, Paraty, 2010), o primeiro a ser lançado, em 2008: e Lembrou-se, Xiba e Zepelim – Histórias da antiga Fazenda do Fundão em Paraty (Ed. da autora, 2ª ed. revisada, Paraty, 2009), lançado em 2009. Para escrever e publicar os dois livros, Maria Thereza teve a valiosa assessoria editorial de Sylvia Junghähnel, uma paratyense de coração, de origem germânica, pedagoga, consultora e guia de Turismo, especializada em Atrativos Naturais e Observadora de Aves, que organizou ambos os trabalhos, inclusive escrevendo a apresentação do primeiro.


Maria Thereza desenhou as capas dos seus livros com lápis de cor.
(Divulgação)
Além de realizar, em imagens e som, os dois livros de Maria Thereza, a diretora Tati Beck os enriqueceu ainda mais com a gravação de tesouros sociológicos que são os depoimentos, as memórias, os personagens, a narrativa, as paisagens, os fatos, os bens, os dotes, os dons da tradicional Família Alvarenga Corrêa e da Fazenda do Fundão, seus habitantes, amigos e contemporâneos, de 1920 a 1960. Uma época e a sua inestimável fortuna humanística, histórica e ecológica. O filme de Tati Beck é mais seminal, mais primacial, do que as próprias fontes que o inspiraram, isto é, os maravilhosos livros de Teleca. Evidentemente, não me abstenho de louvar o alto valor socioantropológico, etnográfico, cultural, dos livros da Maria Thereza. O que quero assentar é que a arte de Tati Beck, o seu “fazer cinema” chegou à genialidade, ultrapassou, quilometricamente, os meros recursos, os próprios assuntos cinematográficos iluminados e as ferramentas de que dispunha. Não se limitou a ilustrar as obras de Maria Thereza, colocá-las na tela. Superou, com fidelidade, engenho e ternura, todas as dificuldades e limitações de uma produção cinematográfica independente, que não contou com patrocínios ou apoios públicos ou privados. A façanha foi alcançada. Os desafios não estavam apenas nas ausências, nos idos, nos vazios. Foram reais as dificuldades de toda sorte, para reconstruir, com sabedoria, técnica e arte, um tempo, muita vida, um universo inteiro. Mas, principalmente, pela sua invenção sem invencionices, o seu poder de enunciar, comunicar e emocionar sem apelos baratos, sem lugares-comuns, sem cambalhotas tecnicistas, erráticas e falsas.

Assim como prometi à Maria Thereza escrever e publicar uma crítica aos livros dela, ouso, aqui, rabiscar e divulgar, dizer algo sobre o documentário Dias de Infância, Memória da Fazenda do Fundão. Tenho notícias das dezenas de outros filmes que Tati Beck roteirizou e dirigiu em vários países. Mesmo sem conhecê-los, e imagino que sejam excelentes, assevero, sem risco, pelo que vi neste filme que Tati Beck é uma artista inteira, brilhante, criadora de uma obra-prima no gênero “documentário”. Trata-se de um filme para ser visto, sentido e aplaudido, para ser alimento, poesia, arte, sonho e reflexão, denúncia sempre, pronto para arrematar muitos prêmios em festivais no mundo.

Acesse:


e assista a essa maravilha da Cultura Brasileira.



(*) Jornalista e Consultor Cultural 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

OS PARATYENSES e OS ANGRENSES


Convido os internautas a ler os meus artigos da série Os Paratyenses, no endereço:

http://www.castroassociados.com.br/?page=artigos_list

São perfis sobre personalidades e personagens de Terra de Domingos Gonçalves de Abreu, que já não estão entre nós, com as quais o autor teve o privilégio e a felicidade de conviver, da infância até hoje.

Rua do Fogo, no Bairro Histórico de Paraty, RJ, onde há dezenas de ruas tão ou mais belas,
floridas e bucólicas, quanto esta. Ela integra o Plano Urbanístico da Cidade (Código de Posturas),
o segundo da cidade, do início do Século XIX. O primeiro data do Século XVII.
Paraty foi a primeira cidade planejada do Brasil, por volta de 1660. (Foto: Magali de Oliveira)
___________________________________________________________________

E os artigos da série Os Angrenses, na

Revista do Ateneu Angrense de Letras e Artes - AALA

São perfis sobre personalidades e personagens de Terra de Lopes Trovão, que já não estão entre nós, com as quais o autor teve o privilégio e a felicidade de conviver, da infância até hoje.


Convento Carmo, construído entre 1613 e 1616, à beira-mar, e de frente para o mar, na cidade de Angra dos Reis.
O conjunto é composto pela Capela da Ordem Terceira do Carmo, a Torre Sineira, a Igreja Conventual e o Convento.
A Torre original foi destruída, bombardeada em 1710 pelo corsário francês Jean-François Duclerc.
O atual edifício é resultado de reconstruções feitas no Século XVIII.
(Foto: www.turismovaledocafe.com)
___________________________________________________________________________________










segunda-feira, 19 de junho de 2017

1917-2017
CENTENÁRIO DE CÂMARA TORRES
José Augusto da Câmara Torres
(*Caicó, RN, 22.6.1917 –†Niterói, RJ, 22.8.1998)

Jornalista, Educador, Advogado e Político

domingo, 12 de março de 2017

LACERDISTAS ENRUSTIDOS E DISSIMULADOS

Depois que um amigo me contou que foi testemunha ocular de o fato que agora narro, nada mais me surpreende nesse mundo dos “intelectuais” ortodoxos, sectários e convictos. Ele se aproximou do personagem para se certificar de que não era uma ilusão de ótica ou um erro de identificação. Ou se seria um sósia a pessoa a poucos metros dele. Numa igreja da Tijuca, zona norte do Rio, este meu amigo flagrou o historiador materialista dialético, marxólogo, teórico respeitado nacionalmente, ateu praticante, autor de dezenas de livros, aclamado por leninistas, trotskistas e maoístas, o coronel Nelson Werneck Sodré, já provecto, meses antes de falecer, orando, de pé, contrito, tocando uma imagem de Nossa Senhora. Chegou bem perto do intelectual comunista para confirmar o que via. O coronel estava com os olhos marejados e balbuciava humilde e piedosamente. Até aí nada demais. Compreensível. Ao Homem, na sua pequenez, continência e contradições cotidianas, qualquer mudança no pensamento, no coração e no espírito é permitida e tolerável, mesmo que imprevisível. Porém o que constrange e decepciona o observador social são aqueles sujeitos arautos de determinada ideologia, partido ou posição política, que, ordinária e regularmente, fogem de si mesmos, mentem, “posam para fotografia”, surfam em onda alheia, dissimulam, interpretam, sempre, papéis, os quais, publicamente, negam ou não admitem em hipótese alguma.

Uma dessas crenças, uma corrente histórica não assumida, envergonhada, é o Lacerdismo, o fato de alguém receber a pecha “insultuosa” de ”lacerdista”, seguidor, correligionário de Carlos Lacerda (1917-77), vereador, deputado estadual e federal, governador da falecida Guanabara, fundador da famigerada UDN. O máximo que admitem é dizer: “Um grande administrador, mas não me venham com a mentira dos mendigos mortos no Rio da Guarda...”. Não se trata de se revelar, com orgulho e sem constrangimentos, como um cidadão de Direita, liberal, consciente e defensor da Justiça Social num sistema capitalista. Nem tão pouco de se manifestar como um “Conservador”, monarquista ou republicano, de Direita, sem oscilações e conveniências, também consciente e responsável social e politicamente. Neste último caso, o do Conservadorismo, tanto a Direita sã, capitalista, criativa e inventiva, bem como a raríssima Esquerda Democrática (Trabalhistas e Social-Democratas), consideram saudável, indispensável, a sua presença no espectro partidário de uma Democracia.

Mas o Rio está enxameado de lacerdistas enrustidos, herdeiros daquele Carlos Lacerda talentoso e feroz, incoerente, virulento e oportunista, que professou, na juventude e maturidade, todos os credos políticos imaginários, com exceção do monárquico, mas pontificou, glorificou-se mesmo como a mais execrável Direita, calhorda, antinacional, entreguista, manipuladora da frágil e vulnerável classe média, que Darcy Ribeiro denominava de “Direita Tarada”. Era um balaio no qual poderíamos ajuntar, ontem, além de Lacerda, um Amaral Neto, um Roberto Campos, Sandra Cavalcanti, Médici, David Nasser, Cantídio Sampaio, ACM e outros vultos. E, hoje, um Bolsonaro, um Pastor Everaldo, Dornelles, entre outros.

Os remanescentes do Lacerdismo têm pudor de se revelarem como tais, de mostrarem o rosto lacerdófilo, da “direta tarada” que levou Getúlio Vargas ao suicídio e apoiou o Golpe Militar de 1964. Recentemente, vivi alguns exemplos desse receio e dissimulação. Um deles, e o mais emblemático, foi a manifestação de um “jornalista” que posa de “trabalhista histórico” – imaginem! – quando escrevi sobre a última vez que eu vi Carlos Lacerda. Foi em Paraty, RJ, no início da década de 1970, intermediando transações imobiliárias complexas, no mínimo “suspeitas”, dizia-se. Era madrugada e Lacerda estava meio grogue, sob chuva fina, sozinho, numa das ruas do Bairro Histórico, admirando sobrados e casarões.

Pois bem, o tal “jornalista” ficou tão indignado com a minha informação verdadeira e comprovável por dezenas de paratyenses vivos contemporâneos, que, editor de um site, censurou o meu texto e retrucou sanguinariamente: “Não é verdade. Você está inventando. Lacerda era milionário, vendeu a Tribuna da Imprensa por dez milhões de dólares (? – interrogação minha). Ele nunca morou em Paraty, nem jamais foi corretor de imóveis...”. Enfureceu-se, também, quando, comprovadamente, afirmei que Lacerda participara de conspirações contra-revolucionárias ocorridas logo em 1931, prontamente reprimidas, escondendo-se em propriedade da família em Vassouras, RJ. Analfabeto histórico, crítico circunstancial do varejo político, rasteiro, que pululam nos noticiários; pequeno, medíocre, inculto, sem informação, o tal “jornalista”, além de se ofender, de se revelar um lacerdista enrustido, entendeu que um sujeito do nome, prestígio, inteligência e capacidade de um Carlos Lacerda, mesmo no ostracismo político, cassado politicamente, precisaria morar em Paraty ou ter inscrição do CRECI para negociar com grandes grupos e corporações econômicas, a compra e venda de imóveis, tanto na cidade como no belíssimo, cobiçado e valorizadíssimo (já naquela época) litoral do único Município do País considerado por lei “Município Monumento Nacional”.

Após ser agredido e insultado pelo pseudojornalista em decorrência deste episódio, que me acusou de “descuidado e ficcionista”, disse ao sujeito que ele continuava “um ginasiano, após décadas de ‘Jornalismo’. E que nunca deixou de ser um lacerdista”. Além disto, e por conta da discussão em que eu não tinha contendor, mas somente um detrator farsante, sobre o dorso da arrogância, chamei-o de “incivilizado, mal educado e analfabeto político, histórico e cultural. Afinal, falecido”. A um suposto e circunstancial amigo comum, eu disse que o lacerdista enrustido era apenas “um ex-repórter esperto, um ex-editor medíocre, como centenas que estão por aí. Intelectualmente, um asno, um "intelectual de orelha de livro". Profissionalmente, um incapaz. Moralmente, um pulha, inescrupuloso." Infelizmente, com um lacerdista dissimulado, a mesma violência, as mesmas armas de quem Samuel Wainer apelidou de "O corvo", agourenta e traiçoeira ave, amoral, sem nenhum caráter, como costumava qualificar essas espécies, o genial Nelson Rodrigues.

Seria mais normal e saudável, democrática e historicamente compreensível e aceitável, se os que comungam com as ideias e pensamento de Carlos Lacerda, seus viúvos e sectários envergonhados, assumissem essa condição e mostrassem o rosto, fizessem os seus discursos. Mas a realidade mostra os insistentes disfarces, escapismos e dissimulações ineficazes. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

"ESSE BRIZOLA É UM DEMAGOGO, UM IDIOTA, SÓ DIZ BOBAGENS..." - Bordão dos adversários de Brizola, dito, de 1979, quando ele retorna do exílio, até a sua morte em 2004.

Darcy, Brizola e Niemeyer: os criadores dos CIEPS
Foto: www.pdt.org.br
No último dia 22 de janeiro, nos lembramos de que há 95 anos nascia Leonel de Moura Brizola, em Cruzinha, na roça gaúcha, distrito de Carazinho, filho de camponeses pobres, criado órfão de pai, este assassinado pelas costas na Revolução Federalista. Alfabetizado pela mãe, estudou em escolas públicas, se formou Técnico Agrícola com uma bolsa de estudos do Estado do Rio Grande do Sul. Trabalhou desde a infância para se manter na Capital, Porto Alegre, e cursar o Ginásio e o Segundo Grau, até se formar Engenheiro Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRS. Ingressou na Política por iniciativa própria, depois incentivado por João Goulart e Getúlio Vargas, foi um dos fundadores do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, a única agremiação social-democrata até hoje existente no País, se elegendo deputado estadual. Em 1950 casou com Neuza Goulart, irmã de Jango, que pertencia à família mais rica do Estado. O resto da História você já leu neste blog, na matéria Incrível! Fantástico! Extraordinário! Episódios da Política e façanhas de alguns políticos brasileiros - 2ª parte, postada em 16.10.16.

Desde a sua morte, os políticos federais, estaduais e municipais, e as Oposições circunstanciais, as de plantão, em qualquer nível, a mídia, os cientistas sociais e políticos – todos que, no passado, sempre criticaram as suas ideias e posições não se cansam de repetir o que Brizola sempre afirmou, e sempre foi contestado, por mais de cinquenta anos. Os que sobreviveram a Brizola fazem, diariamente, pronunciamentos e dão entrevistas, como se fossem eles os primeiros a se manifestarem sobre certas questões nacionais, como que fossem eles os que descobriram o que Brizola repetiu por décadas. São problemas cristalizados, que estão se transformando em arqueologia na nossa História. Abaixo alguns dos pensamentos do Homem Público Leonel Brizola, proclamados, sem medo, sem ódio, durante toda a sua vida de lutas pelo Povo Brasileiro, de coerência ideológica e política.


  • Sobre o Trabalhismo, hoje, no Brasil, uma doutrina na gaveta, e ausente da vida partidária: 
O Trabalho é o valor primacial, fundamental, insubstituível, o principal elemento, essencial na vida de uma sociedade. O trabalho deve ser a base da Economia, deve perpassar toda a vida social. Ele é o elemento que humaniza, eleva, honra e dignifica a Vida e o Homem na Comunidade, na sua conduta como cidadão, agente criador e produtivo e nas suas relações com o outro, com a Coletividade, com o Estado.“


  • Sobre o Povo Brasileiro: 
A elite norte-americana luta pelo povo norte-americano. A elite alemã defende o povo alemão. A elite japonesa briga pelo povo japonês. E assim por diante. Cada elite de um país trabalha pelo povo do seu país. Aqui, não. O Povo Brasileiro é bom, trabalhador, generoso. O que não presta é parte das nossas elites, vinda de vários pontos, com vários matizes. Ora dá as costas para o seu Povo, ignora-o; ora se locupleta dos bens do País, saqueia a Nação; ora se alia às elites de outros países para auferir criminosamente lucros e vantagens indevidas, em detrimento do Povo Brasileiro.”


  •    Sobre a sua “tara” existencial e política, a Educação: 
A Educação é o principal dever, instrumento, a principal tarefa de uma Nação que pretende ser livre e soberana, reproduzir gerações conscientes e responsáveis pelo seu desenvolvimento, forjar o seu futuro com independência e autonomia, missão de um País que quer ser dono do seu próprio destino. Não se confunda escola de “horário integral” com escola de “Educação Integral”: a primeira é uma extensão de permanência das crianças numa escola deficiente, precária, que, com raríssimas exceções, tivemos no passado; a segunda é uma nova Escola, onde a criança tem ensino, orientação moral e social, assistência integral às suas necessidades físicas, psicológicas, mentais e culturais, e é preparada, com dignidade e respeito, para a Vida, a Cidadania e o Trabalho. Cada CIEP deve ser um espaço, um pólo, centro de convergência social, de criação e divulgação cultural de uma comunidade.


  • Sobre os brasileiros: 
A vida das nossas crianças começa no ventre materno. Temos de proporcionar um pré-natal seguro, eficiente, de qualidade, às mães brasileiras. O cérebro das nossas crianças tem de ser cuidado antes do seu nascimento. Depois, na pré-escola, tudo começa acontecer no desenvolvimento físico, mental, psicológico, afetivo, intelectual das nossas crianças. É o período onde se formam e se consolidam as matrizes orgânicas, mentais, emocionais nos cérebros das nossas crianças. Elas precisam de atenção, substanciosa nutrição, cuidados, carinho. É como ocorre nos computadores: se um desses chips queimar, não tem mais jeito. Se não dermos a elas boas condições de higiene, saúde, uma família bem estruturada, uma boa pré-escola, eficiente e eficaz, o que será da alfabetização dessas crianças, do seu curso de 1º grau? São nessas fases, da primeira infância onde se constroem as bases do indivíduo, das futuras cidadãs e cidadãos.”


  • Sobre o tráfico de drogas e armas: 
O Rio de Janeiro não fabrica drogas nem armas. Tudo vem de fora. Precisamos assumir definitivamente, vigiar e controlar as nossas fronteiras, tarefa constitucional da União, da Polícia Federal, da Receita Federal, das nossas briosas Forças Armadas. É pelas nossas fronteiras, marítimas e secas, que entram as drogas, as armas e também ocorre o tráfico de pessoas, legiões de seres humanos escravizados pelo crime e a infâmia.”


  • Sobre Getúlio Vargas: 
O Presidente Getúlio Vargas foi o grande estadista que o Brasil teve no Século XX: construiu o Estado, ergueu a Nação e organizou a Economia nacional, estabeleceu os deveres e direitos dos trabalhadores, lutou até a morte pela nossa independência e soberania.


  • Sobre João Goulart: 
Jango foi derrubado por um conluio da direita entreguista e antinacional, aliada a forças externas, porque era um nacionalista que queria um Brasil livre e desenvolvido, defendia os direitos e interesses do Povo Brasileiro e as riquezas do País”


  • Sobre Segurança Pública no RJ:
Eu jamais proibi a Polícia Civil ou Militar de subir os morros cariocas, penetrar nas favelas, onde prospera, como no asfalto, a bandidagem e a criminalidade. O que eu nunca permiti é que a polícia invadisse as comunidades pobres atirando a esmo, chutando as portas dos barracos dos trabalhadores, assassinando, com balas perdidas, cidadãos de bem, crianças, mulheres, idosos, gente inocente, como acontece hoje. Operações nas favelas? Sim. Mas, cirúrgicas, eficazes, precedidas de trabalhos de inteligência e planejamento. As polícias dos meus dois governos no Rio de Janeiro prenderam centenas de traficantes, homicidas, estupradores, prenderam os bicheiros, chefes de máfias criminosas do jogo ilegal, do tráfico de drogas e de armas. Eu prendi os bicheiros, mas quem levou a fama foi a respeitável e douta juíza Denise Frossard, que os condenou por justiça. No governo Moreira Franco, os bicheiros frequentavam e eram banqueteados no Palácio do Governo. Quando assumi o Governo do Rio de Janeiro pela segunda vez, em 1991, sucedendo Moreira Franco, a capa da revista Veja mancheteava: Rio em Guerra Civil”.


  •   Sobre a presença do Estado na Economia:
A princípio, tudo dever ser privado, não deve caber a presença ou intervenção estatal. Numa economia de mercado, onde há livre iniciativa, com empregos e salários, direitos e deveres de empregadores e empregados, e o objetivo de quem produz é o lucro, o Estado não deve entrar, não deve interferir, a participação do Estado deve ser seletiva, específica, excepcional. O Estado deve, sim, regular vigiartributar, acompanhar para defender o interesse público, e só se tornar sujeito ou responsável pelas atividades econômicas, ser agente produtivo, nas áreas de interesse e importância social, onde não haja interesse, razão ou motivo do particular atuar, onde ele não tenha chance de lucrar, não tenha perspectivas de ganho.


  • Sobre as perdas internacionais, sempre ridicularizadas pelos seus adversários:
As perdas internacionais, a nossa maior desgraça, se traduzem nos pagamentos crescentes de encargos da dívida externa e o envio sistemático, e também crescente, de lucros das grandes corporações que aqui atuam para o exterior, não investindo, nem reinvestindo no País, não geram empregos, não multiplicam riqueza e renda.


  •  Sobre a Educação em Tempo Integral, os CIEPS:
A Educação Integral, a Escola em Tempo Integral, livre e democrática, é fundamental, indispensável, deve ser generalizada em nosso País, acessível a todas as crianças e jovens, pobres e ricos, de todas as etnias e latitudes sociais, culturais, econômicas. Ela é comum, centenária em vários países, inclusive em alguns das Américas. Constitui ensino sob pedagogia contemporânea, enriquecedora; prédios amplos e adequados; equipamentos apropriados ao ensino; boa e produtiva didática; transmissão de valores, princípios, fundamentos e referências civilizatórias acrescentativas; orientação moral, social e cultural para formação de um caráter reto e uma personalidade sadia, digna, tolerante, dos nossos jovens, futuros cidadãos; educação física e esportes; alimentação, do café da manhã à sopa no final da tarde; assistência social, psicológica, médica e odontológica, para que as crianças cresçam, se desenvolvam harmonicamente com a sua cultura e o seu meio, visando a uma vida com saúde, paz, prosperidade e alegria.”

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

RICARDO ZARATTINI: UMA VANGUARDA NO UNIVERSO DA CACHAÇA

Tendo o mestre como aluno:
Zarattini faz, em 2011,
 um dos Cursos de Formação
 de Degustador que ministrei
em Ipanema, Rio.
(Foto: Bruno Lira)
Nascida casualmente em 1532 na Vila de São Vicente, hoje município de Santos, inventada pelo colonizador português Martim Afonso de Souza, seu irmão Pedro Lopes de Souza, e mais três portugueses – a nossa Cachaça, nesses quase quinhentos anos de vida, injusta criminalização e heroísmo, preserva, praticamente, as mesmas normas e procedimentos artesanais do Século XVI no seu processo de fabricação, da moagem da cana-de-açúcar à sua guarda (hoje, engarrafamento), passando pela fermentação e a destilação. Avançaram, é verdade, ou melhor, até se confirmaram, e muito, através da Ciência e da Tecnologia, o variado conhecimento, a sabedoria empírica sobre estas duas últimas fases. Mas nada de revolucionário, sucedâneo ao que se estabeleceu como princípios e fundamentos na terceira década da centúria dos Quinhentos. Descobriu-se a estrutura da bebida, seus elementos foram identificados e classificados, é verdade. Criaram-se materiais e condutas secundárias, complementares, que aperfeiçoaram significativamente a qualidade química e sensorial da bebida. Isto porque fermentação e destilação são processos que existem, espontânea e aleatoriamente, na natureza, são fenômenos biológicos, físicos e químicos, dos quais o homem se apropriou, passou a dominá-los e os utiliza, mesmo que, de início, precária e empiricamente, na fabricação de bebidas com álcool desde séculos antes de Cristo.

A Cachaça foi um milagre brasileiro, acontecido na terra recém-descoberta. A gramínea perene, de colmos (saccharum officinarum), o caldo da cana (garapa), o açúcar, o melaço, o melado, a rapadura, o alambique, a fermentação e o destilo – tudo isto já existia muito antes de Martim Afonso experimentar o melaço (provável matéria-prima), um subproduto da fabricação do açúcar, para obter a aguardente de cana-de-açúcar, então chamada de “aguardente da terra”, depois “jeribita” e, finalmente, “Cachaça”, a bebida brasileira, desenvolvida e regulamentada no Século XX, até chegar ao produto brasileiro, tal qual hoje conhecemos: uma denominação geográfica. E por que os portugueses não inventaram a Cachaça em Portugal se, no Minho, existiam canaviais no Séc. XV e se fabricava a bagaceira? Se, nos Açores e na Madeira, havia plantações, alambiques e bagaceiras, por que nesses arquipélagos não surgiu a Cachaça antes dos portugueses se radicarem e a inventarem aqui? Ninguém sabe até hoje porque a Cachaça não nasceu em Portugal ou nas colônias lusas em África. Daí a Cachaça, um milagre brasileiro.

Dizia que são importantes, mas pontuais, raríssimos, os avanços científicos e tecnológicos na produção da Cachaça. Depois do químico e professor mineiro João Manso Pereira (1750?-1820), certamente o nosso primeiro cachaçólogo e cientista da bebida, que criticou o cobre como material do alambique; do surgimento das normas de análise química e rotulagem em 1930; e da Identificação Geográfica e Denominação de Origem da Cachaça em 2001 – acredito que nada mais ocorreu de relevante no universo da pinga.

Porém, hoje, aos primeiros raios de 2017, uma vanguarda se efetiva: Ricardo Zarattini.

OUSADIA – Pesquisador e Consultor de Produção de Destilados, Ricardo Zarattini (Ricardo de Albuquerque Zarattini) é um estudioso de rara inteligência, disciplina prussiana, perseverança incansável, notável criatividade, ousadia e capacidade inventiva. Cientista e tecnólogo obstinado, apaixonado pelo seu ofício, Ricardo é o pioneiro no Brasil na aplicação do processo Flash Ferm, a Destilação a Vácuo ou Destilação a baixa pressão ou a pressão reduzida aplicada à fabricação da Cachaça. Trata-se de uma tecnologia nascida em Berkeley, nos EUA, originalmente adotada na obtenção de etanol e de algumas bebidas destiladas naquele país e em outros na Europa. Desde o início dos anos 1980, ele pesquisa, aplica, experimenta, com pioneirismo no Brasil, e aperfeiçoa, com muita dedicação, sacrifícios e corajosa vanguarda, o processo da Destilação a Vácuo para a obtenção de derivados da cana-de-açúcar: o etanol hidratado (álcool combustível) e bebidas originárias da cana-de-açúcar, como a Aguardente e a Cachaça. Zarattini, há quase trinta anos, desenvolve suas pesquisas da Destilação a Vácuo para obtenção da Cachaça, na forma, estrutura e com as características químicas e sensoriais da bebida, definidas em Lei. Em 2011, ele concluiu e estabeleceu o seu método tecnológico e processo produtivo, e patenteou a sua invenção no INPI – Instituto Nacional de Propriedade Industrial.

O processo consiste na redução da pressão de vapor no interior do alambique, abaixo da pressão atmosférica (760mm Hg ao nível do mar, ou seja, na eliminação dessa pressão). A destilação ocorre, então, como se fosse no espaço sideral, na ausência de ar. Assim, o vinho de cana (mosto do caldo da cana-de-açúcar fermentado), ao invés de entrar em ebulição na faixa entre 88oC-90oC, como ocorre na destilação normal de alambique (artesanal tradicional), o fenômeno se dá entre 50oC-55oC, abaixo do ponto de desnaturação térmica da maioria dos compostos orgânicos presentes. Com isto, os “congêneres” da Cachaça são reduzidos e mais facilmente controlados, e os contaminantes da Cachaça significativamente reduzidos, praticamente eliminados.

Explico aos leigos. Há décadas, alguns alambiqueiros que não sabem fazer cachaça de Excelência Sensorial e outros, que também não o sabem, porém até bem intencionados, preocupados com o excesso dos “congêneres da Cachaça” (componentes voláteis "não álcool", ou substâncias voláteis "não álcool", ou componentes secundários "não álcool", ou impurezas voláteis "não álcool"), ou seja: aldeídos, furfural, ésteres, ácido acético (acidez volátil), alcoóis superiores, gerados nos processos de fermentação e destilação, dos quais resulta a bebida; e, também, apavorados com os contaminantes que, naturalmente, ocorrem nos dois processos, os contaminantes orgânicos: metanol e carbamato de etila (cancerígeno), acroleína e outros álcoois; e os contaminantes inorgânicos: cobre, chumbo, arsênio e outros álcoois – adotam a bi, tri e até a multidestilação, além de filtragens insólitas para extirpar tanto os “congêneres” como os contaminantes.

Ora, a quantidade dos “congêneres” da Cachaça, aos quais chamo de “santos venenos da Cachaça”, são regrados em Lei quanto às suas presenças máximas e mínimas na composição da bebida, bem como os contaminantes. Os “congêneres”, na sua natural, equilibrada e devida medida, junto com o álcool etílico e a água, essa milagrosa composição é que dá peculiaridade e caráter ao destilado de maior exuberância sensorial do mundo que é a Cachaça. Inclusive, vale lembrar, o coeficiente dos congêneres, a soma deles, possui parâmetros: o inferior não pode estar abaixo de 200mg, e o superior acima de 650mg para cada 100ml de álcool anidro, quantidades que identificam a Cachaça. Fora dessa faixa legal, não existe Cachaça. E há, ainda, os limites máximos individuais de cada “congênere” da Cachaça. São normas obrigatórias a serem constatadas na Análise Química da bebida.

A eliminação dos contaminantes é necessária e saudável, e deve, e pode, ser reduzida a zero. Por outro lado, a eliminação total dos “congêneres” desnatura a Cachaça, submetida a repetidas destilações e filtragens, descaracteriza o destilado, torna-o insípido, insosso, “sem graça” tal quais os destilados sensorialmente pobres como o gin, a tequila, a vodca, o corn, entre outros derivados de cereais, vegetais e frutas. O produto desses alambiqueiros, aos quais denomino “hipocondríacos da Cachaça”, pode ser definido como um álcool neutro, sem aroma e sem o gosto do “espírito da cana”, próprio, adequado apenas para alcoolizar coquetéis, também pobres, e bebedores simplórios, incultos, sem exigências.

EXCELÊNCIA SENSORIAL – Os objetivos de Zarattini com a Destilação a Vácuo da Cachaça são outros. Mais sensatos, mais nobres para a saúde humana, industrialmente mais racionais e produtivos, mercadologicamente mais inteligentes, mais viáveis. Enfim, mais lucrativos para todos os segmentos da chamada “Cadeia Produtiva da Cachaça”. E, claro, melhor e mais saudável para os consumidores que buscam uma Cachaça de Excelência Sensorial mais pura, verdadeira, sem contaminantes, natural, plena, com todas as características e virtudes originais do destilado nacional. Com a sua Destilação a Vácuo, Zarattini não quer criar um novo destilado, ou fabricar um destilado que não seja Cachaça. Zarattini não quer um “álcool neutro”, um “espírito” sem aroma e sem sabor, procurados por quem não conhece e não sabe beber Cachaça; ou pelos mixologistas, os bartenders, que querem tudo “coquetelarizar”, mas que somente poucos conseguem produzir drinques e coqueteis com a riqueza e a supremacia sensorial natural da Cachaça, preservando as suas inigualáveis virtudes. O segredo está em misturar a Cachaça a outros destilados, até mesmo a fermentados, além das frutas e cereais, resultando um verdadeiro coquetel, que combine a Cachaça com as outras bebidas e elementos, sem anulá-la, sem utilizá-la apenas como um mais um álcool a se integrar, ou melhor, a se desintegrar no caos líquido.

Entretanto o ideal, o fundamental, é produzir uma Cachaça para ser consumida pura, com o controle maior dos seus “congêneres”, que não podem, nem devem, ser mínima ou completamente eliminados a ponto de se fabricar uma bebida ignota, bizarra, sem face, sem caráter, composto de álcool etílico e água. Nada disto. O que Zarattini pretende com a Destilação a Vácuo é obter uma Cachaça de verdade, plena de seus elementos originais e naturais, pura, límpida, fascinante no aroma e gostosa no sabor, com cheiro de bagaço de cana pisado pelo burro, com a memória olfativa da rapadura e do melado, do ambiente do engenho artesanal. Uma bebida agradável e saudável, livre dos seus contaminantes, pelo menos quase totalmente extirpada deles, alguns letais, outros patogênicos, que causam doenças, mazelas, sequelas ao organismo humano. Enfim, Zarattini quer que a Destilação a Vácuo ajude ao alambiqueiro artesanal, aquela minoria da minoria que sabe fazer Cachaça, a oferecer ao mercado uma Cachaça de Excelência Sensorial, conceito crítico que criei e pratico há mais de trinta anos: uma pinga pura, natural e sem venenos; uniforme na cor, límpida; de aroma fascinante e delicado; na boca, com unidade química (álcool + água), ardência necessária (água ardente), sensual e excitante; saborosa, macia, edênica; de suave gustação e boa digestibilidade. Zarattini quer um destilado menos agressivo ao paladar humano, com menor acidez, mais suave, de sabor peculiar e agradável, com o aroma rústico e único da cana-de-acúcar.

Essa qualificação – uma Cachaça de Excelência Sensorial - apresentada e explicada didaticamente em meus livros, é resultado e é definida pela Análise Sensorial que faço para os meus clientes, que não se confunde com Análise Química, outro procedimento, a cargo de outro profissional. A Degustação Profissional, bem como a Análise Sensorial, trabalhos que realizo há quase trinta anos, para diversos segmentos, do produtor de Cachaça ao empresário ou empreendedor, passando pelo agrônomo, pelo químico, por diversos técnicos dos setores da produção, do mercado, do consumo, são procedimentos profissionais diversos, que aliam e exigem do Degustador, ampla sabedoria do universo da Cachaça, conhecimento técnico-científico sobre a bebida, todos os aspectos e etapas do setor da Agroindústria da Cachaça, aos valores, fundamentos, princípios, conceitos da Cultura onde estão inseridos: o Cachaçólogo (estudioso) e o Degustador, uma só pessoa, e a Cachaça, a marca, sua história, seu processo, características, perfis químico e sensorial.

O CAMINHO – Após integrar um projeto experimental de aplicação numa cooperativa no Paraná do Flash Ferm, e um segundo, da mesma natureza, ambos para produção de etanol hidratado (álcool combustível) no mesmo Estado, Ricardo Zarattini, de 1980 a 1986, prosseguiu nos seus estudos e experimentos, obtendo, numa pequena “cebola” (alambique rústico) e num destilador a vácuo de bancada, em laboratório, empregado nas análises rotineiras do etanol, Cachaça Bidestilada a Vácuo. Consolidava-se uma conquista perseguida há anos. Era o primeiro passo. Desde então, Zaratttini, solitariamente e com muitas dificuldades, jamais abandonou as suas pesquisas sobre a tecnologia.

Como podemos resumir e explicar, basicamente, o processo Destilação a Vácuo do Vinho de Cana Fermentado (do mosto fermentado), suas características e benefícios, descoberto e patenteado por Zarattini? Com a referida ebulição do mosto fermentado, num alambique a vácuo, sem pressão atmosférica, evita-se a desnaturação térmica da maioria dos compostos orgânicos, os subprodutos indesejáveis, nocivos à saúde humana os quais são significativamente reduzidos ou completamente eliminados. Esses compostos orgânicos são os ácidos orgânicos, originários da degradação térmica de proteínas, aminoácidos, vitaminas, lipídios. Também estão presentes no mosto fermentado, as organelas, como a clorofila e as células de micro-organismos. Com a Destilação a Vácuo, o pesquisador também espera: minimizar, ao máximo, a velocidade de formação do composto “carbamato de etila”, substância cancerígena, um grave e letal contaminante da Cachaça; diminuir o consumo de lenha e/ou de bagaço de cana na fornalha da caldeira que aquece o alambique, e a carga energética total empregada no processo de destilação; melhorar a qualidade do vinhoto produzido, que, numa gestão ambiental sustentada, é destinado à alimentação bovina e, reciclado, aos canaviais, hortas e outras plantações.

Eu e Ricardo Zarattini temos muitas concordâncias e identidades quanto pureza do destilado, às características naturais que o tornam peculiar e único no mundo, ao empirismo secular chancelado pela Ciência, ao rigor tecnológico e de higiene em todas as etapas de fabricação da Cachaça, enfim muitas são as nossas convergências relativas à Excelência Sensorial da Cachaça. Tive a honra de ter Ricardo Zarattini como meu aluno no 2º Curso de Formação Básica de Degustador de Cachaça – Amador e Profissional, que ministrei em Ipanema, em 2011. O mesmo privilégio, em cinco versões do Curso, eu tive, de poder transmitir a outros químicos, biólogos, engenheiros agrônomos e de alimentos, economistas, alambiqueiros, destiladores, empreendedores, empresários e técnicos do setor, estudantes, pingófilos e apreciadores em geral, as minhas ideias, críticas, conceitos, propostas relativas à produção, comercialização e consumo da bebida brasileira. Foram meia centena de alunos de vários Estados e do exterior.

Nos EUA, Ásia e na Europa, a Destilação a Vácuo já é utilizada na produção de destilados de altíssima qualidade, entre eles, a vodca, o gin e a grapa. No Brasil, Zarattini, pesquisador e consultor, aplicado e corajoso, superando inúmeras dificuldades e obstáculos, é o inventor, o introdutor, o desenvolvedor do processo na fabricação do destilado nacional, a nossa amada Cachaça.

Aguardo, ansioso e otimista, os resultados dessa verdadeira vanguarda de Ricardo Zarattini no universo da Cachaça, quando a Destilação a Vácuo terá, em 2017, as primeiras e efetivas provas de produção econômica e empresarial num engenho artesanal no Estado do Rio de Janeiro. Confio na ciência e capacidade tecnológica do mestre Zarattini, vocação e amor ao nobre ofício de fazer sempre o melhor na produção de destilados e no universo da Cachaça. Parabéns! Pleno êxito! Sucesso!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

VERDADES POUCO CONHECIDAS SOBRE POLÍTICOS BRASILEIROS

O exilado Celso Furtado – O consagrado economista e professor paraibano, nascido em Pombal, Celso Monteiro Furtado (1920-2004), expedicionário da FEB, Bacharel em Direito e Doutor em Economia pela Sorbonne; criador e duas vezes Superintendente da SUDENE, Diretor do então BNDES, primeiro Ministro do Planejamento do Brasil, intelectual consagrado internacionalmente, viveu exilado em Paris, lecionando e pesquisando na Sorbonne e em outras universidades e instituições dos EUA e da Europa, no período de 1965 a 1979. Quando era visitado por brasileiros em Paris, recebia-os, acreditem, falando francês. É autor de Formação Econômica do Brasil, uma das obras mais importantes, livro-referência, para quem quer conhecer o País. Inteligente, culto, mestre brilhante, pensador do Brasil e formulador da Economia, administrador notável – Celso foi um dos homens mais valorosos e vaidosos da História Política Brasileira. Com ele disputaram o Troféu Rempli de soi-même no Século XX, com conteúdo, estofo, justificadamente, e, por isto, vaidosos podiam ser: Darcy Ribeiro, Fernando Henrique Cardoso e Paulo Brossard. Medíocres, “cheios de vento”, “fazendo gênero”, Aloysio Chaves (Senador PDS-PA, 1979-87) e Fábio Feldman (Deputado Federal PMDB e PSDB-SP 1987-95). Entre aqueles, os "justicados", e estes, os "vazios", está o "punhos de renda" Luiz Vianna Filho, intelectual valoroso, de obras, é verdade, porém, para mim, sem os louros e as loas tão altas que lhe foram dadas em vida e que ainda são cantadas em sua memória. Darcy Ribeiro não escondia a sua vaidade. Disse-me mais de uma vez: “A minha vaidade é resultado da minha fragilidade, da minha pequenez, das minhas carências. Eu preciso de carinho, de afagos. Por isto solicito tanto reconhecimentos, gestos ternos, carícias de toda natureza, inclusive verbais. Eu sou extremamente carente”. 

Amaral, Ministro de Jango,
entrega a Reforma Administrativa.
(Foto: www.educaja.com.br)
O marinheiro Amaral Peixoto – O niteroiense Ernâni do Amaral Peixoto (1905-89), engenheiro-geógrafo, Almirante da Marinha do Brasil, foi um político com vasta e riquíssima biografia. Revolucionário em 1930, ex-Interventor no Estado do Rio de Janeiro, de 1939 a 1945, depois, filiado ao PSD, exerceu mandatos de Deputado Federal Constituinte em 1946, Governador do RJ eleito diretamente (1951-4), Ministro de Estado da Viação e Embaixador nos EUA no Governo JK, Ministro do TCU, Ministro Extraordinário da Administração do Governo João Goulart, Deputado Federal pelo MDB e, finalmente, duas vezes Senador, a primeira pelo MDB, a segunda, “biônico”, pelo PDS. Era conhecido e ridicularizado como “Amaral Pé Enxuto”. Segundo seus adversários, apesar de Almirante da Marinha de Guerra do Brasil, jamais se aproximou ou se banhou no mar ou embarcou em um navio, baleeira ou canoa, exceto a barca Rio-Niterói e os barcos chamados “Avisos” da Marinha para viagens político-eleitorais até a Baía da Ilha Grande. Puro humor de bases falsas e depreciador. Pilhéria desmoralizante. A verdade histórica é outra. 

Ernâni do Amaral Peixoto, além de participar de importantes atuações em terra, como militar, e, também a bordo de vasos de guerra, em movimentos tenentistas, por influência do irmão, também militar da Marinha, Augusto do Amaral Peixoto Júnior, revolucionário em 1924 e em 1930, esteve embarcado várias vezes, em exercícios navais, missões de paz e de conflitos armados, desde que se formou na Escola Naval, no Rio, em 1927. O revolucionário, de 1922, 1924 e 1930, então Capitão-de-Mar-e-Guerra, Protógenes Guimarães, depois Ministro da Marinha e Interventor no RJ, com quem Amaral travou contato nos levantes tenentistas, foi, sem dúvida, além do irmão Augusto, o seu grande líder militar e, depois, o padrinho político de Amaral junto a Getúlio Vargas, antes até do Estado Novo. 

Sua primeira viagem de instrução, ainda como guarda-marinha, no ano que recebeu o espadim, deu-se a bordo do cruzador Bahia. No ano seguinte, foi promovido a segundo-tenente e serviu no encouraçado Minas Gerais. Em 1929, primeiro-tenente, e, em 1930, encarregado geral dos aspirantes embarcados no Minas Gerais. Foi imediato do navio mineiro Maria do Couto, participando de operações de adestramento com forças do Exército. Retornou ao Minas Gerais, ficando ligado à direção de tiro junto com Lúcio Meira e Henrique Fleiuss, sendo também secretário do encouraçado, sob o comando de Silvio Noronha. Nesta época, participou de articulações que deflagraram a Revolução de 1930, que depôs Washington Luís e alçou Getúlio Dornelles Vargas (1884-1954) ao poder. 

No Governo Provisório, foi designado Ajudante de Ordens do comandante da Flotilha de Contratorpedeiros, Almirante Otávio Perry, indo servir no cruzador Barroso. Também foi Ajudante de Ordens do Almirante Augusto Burlamaqui, Comandante-em-Chefe da Esquadra, acompanhando-o quando ele foi nomeado Diretor-Geral do Arsenal de Marinha. Em seguida, cumpriu missões como Oficial da Marinha do Brasil na Liga das Nações, na Suíça, como Assistente Naval de José Carlos de Macedo Soares, ao lado dos Almirantes Américo Ferraz e Castro e Álvaro Vasconcelos, e, em outras representações em eventos, na Itália. Após essas missões político-diplomáticas, Amaral foi enviado para a base naval de Spezia, próxima a Gênova, na Itália, embarcando no contratorpedeiro italiano Leone, onde fez observações técnicas e estudou os sistemas de direção de fogo. 

Com a eclosão da Revolução Constitucionalista, em 9 de julho de 1932, Amaral voltou ao Brasil e seguiu, como voluntário, para a frente de combate no setor Paraty,RJ-Cunha,SP, onde foi artilheiro, sob as ordens do irmão Augusto, comandante do batalhão da Marinha no setor, e dos capitães Nelson de Melo e João Alberto Lins de Barros. Coincidentemente, o patronímico “Amaral” é tricentenário em Paraty, rezando a tradição local que o ex-Governador do RJ tem as raízes paterna (Peixoto) e materna (Amaral) no Município Monumento Nacional, pois o avô paterno de Amaral Peixoto, Pedro Evaristo de Almeida Peixoto, foi Presidente da Câmara Municipal do Município, de 1913 a 1915. E muitos paratyenses com o sobrenome “Amaral”, se apresentam como parentes de Ernâni. 

Após a vitória das forças legalistas em 1932, Amaral Peixoto, promovido a capitão-tenente, é designado para servir como Ajudante de Ordens do Comandante da Primeira Divisão Naval, Almirante Ferraz e Castro, seguindo a bordo do navio capitânia da Divisão, o Rio Grande do Sul, para juntar-se a outros vasos de guerra, a fim de bloquear o tráfego do Rio Amazonas e de seus afluentes, garantindo a neutralidade do Brasil no Conflito de Letícia, entre Peru e Colômbia. No final de abril de 1933, por sugestão do Ministro da Marinha, Protógenes Guimarães, a Getúlio Vargas, Amaral Peixoto é nomeado para o cargo de Ajudante de Ordens do Presidente da República, em substituição ao Capitão-Tenente Celso Pestana, morto em acidente automobilístico. Neste cargo, Amaral faz o Curso de Aperfeiçoamento em Armamento, na Escola de Especialização da Marinha. Ernâni, em 1939, casou-se com Alzira Sarmanho Vargas, a Alzirinha, filha de Getúlio, tornando-se seu genro e poderoso conselheiro. 

Como se vê, Amaral Peixoto, passou parte da sua carreira militar embarcado e se aperfeiçoando nas técnicas e artes navais. Ainda em 1933, influenciado pelo irmão Augusto, eleito Deputado Constituinte em 1933, pelo Partido Autonomista, Amaral ingressa na política, filiando-se à agremiação. 

O resto é Política e está nos livros de História e nas enciclopédias. E aí começa outro longo e plural percurso do personagem. Agora, desembarcado. Destaque para a atuação de Amaral Peixoto como interlocutor presencial do Presidente Roosevelt, dos EUA, representando Vargas, nas tratativas da entrada do Brasil na Segunda Guerra contra os países do Eixo. Também influenciou a decisão de Vargas de o Brasil lutar ao lado dos Aliados, além de se pronunciar publicamente e participar de manifestações populares, em pleno Estado Novo, contra o nazifacismo. 

Roberto: talento, liderança e competência política.
(Foto: www.adorocinema.com)
O boêmio e andador Roberto Silveira – Roberto Teixeira da Silveira (1923-61), natural de Bom Jesus do Itabapoana, RJ, o mais jovem Governador do Estado do Rio de Janeiro, eleito em 1958, por uma inimaginável coligação PTB-PSP-UDN contra o PSD de Amaral Peixoto, que tinha como candidato Getúlio Moura, foi um dos mais autênticos e populares líderes políticos do século passado da História do Brasil. Antes de governar os fluminenses, foi duas vezes Deputado Estadual, a primeira como Constituinte em 1946, Secretário do Interior e Justiça do Governador Amaral Peixoto e Vice-Governador de Miguel Couto Filho. Seria, para muitos, “o futuro Presidente da República”, após João Goulart, se o golpe não ocorresse. 

Além de um Homem Público brilhante e extraordinário administrador, era um político muito próximo do povo, gostava de conversar com todos, ouvia muito. Homem de Cultura, fascinado pelas Artes em geral, sua personalidade tinha um aspecto que poucos conheciam. Era um boêmio, mesmo sem álcool, à la Mário Lago, apaixonado por música popular, folclore e serestas. Adorava reunir-se com amigos, mesmo durante o seu governo, em viagens oficiais, para conversar, participar de serestas e ouvir os poetas dizer poemas. Muitas vezes, e eu fui testemunha em algumas, esperava que as comitivas oficiais se recolhessem nas cidades que visitava e, com alguns assessores de maior amizade, “fugia” para a boemia, retornando pela madrugada. Mas isto, poucos viriam a saber. Porém, na hora de cumprir a agenda na manhã seguinte, oito ou nove horas, a que horas fosse, estava lá o Governador Roberto Silveira, impecavelmente trajado, com excelente humor, o seu insuperável carisma, sempre muito simpático, acessível a todos, para cumprir a agenda oficial, seja para fazer uma visita técnica ou político-institucional, participar de uma reunião de trabalho, presidir uma inauguração de uma obra de seu governo etc. 

Outra curiosidade de sua personalidade era a impressionante velocidade com que andava pela Capital, quando necessário, e cidades do interior do RJ, cumprindo compromissos em eventos, onde a sua presença era protagonista. Poucos, entre eles, meu pai, Câmara Torres, à época Deputado Estadual, seu grande e fraterno amigo, que, mesmo com a baixa estatura, conseguia acompanhar o passo de Roberto Silveira. Roberto tinha a rapidez no caminhar tão rara, quanto à inteligência, sensibilidade e capacidade política.